11/02/2026
Lupicínio Rodrigues, a canção brasileira e o cuidado da memória sonora
Música gaúcha, histórico sonoro-musical e perspectivas afrocentradas na musicoterapia
Falar de Lupicínio Rodrigues é falar de sentimento em estado bruto.
É falar de uma música que não pede licença à razão: ela atravessa o corpo, toca a memória e reorganiza a experiência emocional de quem escuta.
Compositor fundamental da canção brasileira, nascido em Porto Alegre em 1914, Lupicínio construiu uma obra marcada pela intensidade afetiva, pela dor amorosa, pela saudade e pela verdade emocional. Suas canções não são apenas narrativas românticas — são territórios de experiência psíquica, onde o sofrimento, a perda e o desejo encontram forma simbólica através da música.
É justamente nesse ponto que sua obra dialoga profundamente com a musicoterapia.
A canção como memória emocional
Na musicoterapia, compreendemos que todo sujeito carrega um histórico sonoro-musical:
um conjunto de experiências auditivas, afetivas e culturais que organizam a forma de sentir, lembrar, se relacionar e existir no mundo.
As canções de Lupicínio habitam esse campo.
Elas atravessam gerações não apenas porque são belas, mas porque nomeiam emoções universais.
Quando alguém escuta Felicidade, Vingança ou Nervos de Aço, não escuta apenas música — reencontra partes de si.
Esse reencontro é, em si, um gesto terapêutico.
A música ativa memórias que muitas vezes não estão disponíveis pela palavra.
Ela alcança regiões da experiência onde a linguagem falha.
Por isso, na prática musicoterapêutica, a canção popular brasileira não é apenas repertório cultural:
ela é dispositivo de cuidado.
Música gaúcha, pertencimento e identidade
Embora reconhecido nacionalmente, Lupicínio é também profundamente gaúcho.
Sua obra nasce de um território cultural específico — urbano, negro, boêmio, popular — muitas vezes invisibilizado nas narrativas oficiais do Sul do Brasil.
Trazer Lupicínio para o campo da musicoterapia é também reconhecer a dimensão afetiva da cultura gaúcha, entendendo que identidade regional não se constrói apenas por símbolos heroicos ou rurais, mas também por:
dor
amor
noite
samba
convivência
memória coletiva
Nesse sentido, a música gaúcha popular torna-se um campo de pertencimento emocional, fundamental em processos terapêuticos que trabalham identidade, memória e reconhecimento cultural.
Perspectivas afrocentradas na escuta musicoterapêutica
Lupicínio Rodrigues é herdeiro direto da matriz afro-brasileira da música urbana.
Sua obra carrega marcas do samba, da oralidade, da experiência negra na cidade e da elaboração estética do sofrimento coletivo.
Uma leitura afrocentrada da musicoterapia nos convida a reconhecer:
a música negra como tecnologia ancestral de cuidado
a canção como espaço de resistência emocional
o afeto como forma de sobrevivência cultural
a memória coletiva como campo terapêutico
Nesse horizonte, escutar Lupicínio em contexto musicoterapêutico não é apenas trabalhar emoções individuais —
é também reconectar histórias silenciadas, restaurar pertencimentos e legitimar experiências negras na constituição do sensível brasileiro.
A musicoterapia afrocentrada amplia o olhar clínico:
não trata apenas do sujeito isolado, mas do sujeito em relação com território, cultura, ancestralidade e comunidade.
A dor que organiza
Há algo paradoxal na obra de Lupicínio:
suas canções falam de sofrimento, mas produzem alívio.
Falam de perda, mas geram reconhecimento.
Falam de abandono, mas criam vínculo coletivo.
Isso acontece porque a música permite transformar dor em forma simbólica compartilhável.
Quando a emoção encontra forma, ela deixa de ser caos — torna-se experiência elaborável.
Esse é um dos princípios mais profundos da musicoterapia:
a música não elimina o sofrimento,
mas pode organizá-lo, contê-lo e integrá-lo.
Escutar como cuidar
Trazer Lupicínio Rodrigues para o campo da musicoterapia é afirmar que:
a canção brasileira é patrimônio emocional
a cultura popular é campo legítimo de cuidado
a memória sonora organiza a subjetividade
a escuta é gesto terapêutico
Mais do que compositor da dor-de-cotovelo,
Lupicínio é arquiteto de emoções coletivas.
E talvez por isso continue vivo:
porque sua música segue fazendo o que a boa musicoterapia também faz —
dar forma ao sentir, criar vínculo e cuidar daquilo que não cabe nas palavras.